Estamos em meados de 1997, numa loja de carros importados, situada num dos mais nobres bairros de São Paulo. Era uma tarde tão tranqüila, que beirava o tédio.
Todos voltados para o Anhembi, pois era a semana do Salão do Automóvel, e a loja onde eu trabalhava estava literalmente às moscas.
Este mundo chamado Salão do Automóvel pode atrair muita gente, mas a mim especificamente não atraia como não atrai até hoje.
Então, até para matar o tempo, resolvi entrar numa sala de bate papo do provedor que hospedava o site da loja, chamado STI.
Entrei com o codinome Cecy, que era o nome de minha cachorrinha.
Sem saber ao certo o que iria encontrar, decidi ficar quietinha, apenas observando as outras pessoas conversando, virtualmente é claro.
Num determinado momento, uma pessoa cujo codinome era Merlin, postou a seguinte pergunta:
- Tem algum adulto aí, a fim de conversar algo inteligente?
Achei a pergunta um tanto petulante e ainda pensei o quão arrogante deveria ser esta pessoa, porém, talvez até pela postura dele, resolvi responder:
- Pode ser eu? Grande mago!
A partir disto, entabulamos uma longa e gostosa conversa que passou por literatura, música, política e etc.
O diálogo foi tão gostoso, que marcamos para nos “encontrar” virtualmente no dia seguinte.
Como o Salão do Automóvel mal estava começando, sabia que teria mesmo alguns dias muito tranqüilos na loja e ficou então combinado de nos “encontrarmos” às quatro horas da tarde.
Deste dia em diante, passamos a nos encontrar virtualmente falando todas as tardes, além de intensa troca de correios eletrônicos.
E a conversa fluía gostosamente. Claro que passamos também a falar um pouco sobre nossas vidas e o dia a dia.
Era muito bom ligar meu computador logo cedo e ver: tem mensagem para você.
Já havíamos criado o hábito destes “encontros” diários, que eram ansiosamente aguardados.
Porém, e engraçado este detalhe, não tínhamos necessidade de nos conhecer pessoalmente, as conversas virtuais nos bastavam.
Nestes encontros virtuais e muitos correios eletrônicos que iam e vinham, passaram-se aproximadamente uns três meses.
Eis que um belo dia, já chegando a hora de nossa conversa diária, às quatro da tarde, meu computador simplesmente resolveu não funcionar.
Neste momento pude ver a importância que ele tinha tomado na minha vida e lamentei não ter jamais pedido sequer seu telefone.
Sabia apenas que ele estava bem próximo de meu local de trabalho, pois ele morava também em um bairro nobre de São Paulo.
Num estalo pensei... Vou mandar um e-mail! Quem sabe ele recebe? Neste e-mail, porei meu telefone e ele poderá entrar em contato comigo.
Até este ponto estava tudo perfeito, mas, a máquina realmente não estava disposta a trabalhar naquele dia.
Então, mandei exatamente oito mensagens iguais e todas elas retornaram ao meu computador. Não havia mais nada a ser feito.
Perdemos contato. Tristeza infinita, até porque me dei conta da importância que ele tinha na minha vida.
O computador ficou quase uma semana sem funcionar, e mesmo quando voltou, já não pensei mais em escrever para o meu mago Merlin. Já tinha desistido.
Para minha surpresa, um belo dia atendo o telefone em meu escritório e ouço a seguinte pergunta:
- Você sabe com quem está falando?
Disse que não, até porque não sabia mesmo. Quando então, ele se identificou como Merlin, o meu amigo da Internet.
Contou-me ainda que nunca tinha recebido tantas mensagens idênticas: oito no total.
Rimos muito deste incidente e nunca mais perdemos contato.
Estamos até hoje casados e felizes.
Porque contei esta história para vocês?
Por várias razões, sendo a primeira: Isso tudo aconteceu de fato. Segundo: porque gostaria, de alguma forma, de incentivar nas pessoas o gosto pela informática e terceira, mas não menos importante, porque nunca se sabe, de repente TEM MENSAGEM PARA VOCÊ.
Kátia Ignácio
